Em um calabouço esperando a sentença. O homem não vinha nunca - precisarei chamá-lo? O mundo agora era um cubículo de vidro seco que corta sem ninguém ouvir. De marcha fúnebre e festas infestadas de pessoas desapercebidas. De cheiro de doença e de ar inevitável. De festim que está sendo preparado em minha homenagem e delas, que traziam a cabeça em ossos do animal. De superficialidade e de pedidos para que não esperasse nada. E de quem ainda sua frio e não completa a mensagem. De quem é apenas um entre centenas, para quem é apenas um entre um. De quem pensa e não é pensado.
De duas tiras de madeira e de guilhotina é feito o futuro. De dèjá vús e de sapatos com pontas erguidas, de chapéus com guizados, de barulhos que relembram minha presença. De luz que não ilumina, de branco apático, de não ter nada a esperar. De não ter o que dizer, de viajar à lua, de virar astronauta e brincar de Deus. De ter consciência, de não poder exigir, de nunca mudar, de continuar a inchar. De saber que não vai explodir, de rogar a praga, de despejar fungos. De infecções generalizadas, de cortes abruptos, de ser indiferente. De conquistar atenção, de criar a cura e não contar, de vosso patrão, meu respeito. De obedecer, de respeitar, de curvar-se, de declarar inspiração, de viver futuro, de infestar teu quarto de pragas. De não esquecer por um segundo, de não esquecer por uma frase.
De barreiras que não impedem a comunicação: "sua vez".
quinta-feira, 28 de maio de 2009
sábado, 2 de maio de 2009
Ansiedade Que Precede a Apresentação de Uma Peça Teatral Para Seus Melhores Amigos
Começou com um rascunho de idéias que jamais foram fixas. Mudavam a cada segundo, assim como seu temperamento. Não era de se estranhar que o arrependimento batesse à porta com mais frequência nos invernos - tempo de se recolher e proteger-se de estranhos. O grafite estava fraco. As palavras poderiam ser facilmente apagadas. Mas ele continuou, com a certeza de que estava fazendo o correto.
Sabia que por impulsos não se chegava a nada, assim como sabia que nunca aprenderia a lição. Continuava, continuava. Rangia os dentes, visualizando as piores cenas possíveis. O script estava quase pronto. Os atores já estavam escalados. De quem seriam as falas? Ou melhor: sequer teriam falas? O charme estava no silêncio - pior inimigo do escritor. Provava mais uma vez como sabia de tudo: conhecia seu medo pelo silêncio, sua fraqueza e facilidade em desabar ouvindo... nada.
Ponto final. Não se ouviu mais nenhuma voz. O futuro queria gritar, mas não podia. O futuro queria ser visto... Mas ele não deixava quebrar o silêncio. Vamos lá, só desta vez. Tira esse orgulho. Você nunca foi altruísta. Você nunca foi bonzinho. Se você fosse, talvez receberia o papel de herói. Mas não: você apenas cria histórias, exagera em detalhes, controla a vida de suas marionetes como bem quer. Ele pegou o lápis e fez um movimento no ar. Ouviu-se um grito. Vislumbrou-se o futuro.
Em imagens densas, ele olhava por olhos de terceiros uma encenação culminando em vaias. Foi o choque. Foi uma misericórdia que ele pudesse ter a chance de assistir ao momento com tamanha antecedência. Ele teria que passar a acreditar: foi, sim, uma intervenção divina. E entre um sorriso e outro, repetiu que tudo que vai, volta. É verdade, é verdade.
Foi por isso que o escritor passou a tremer com tanta violência após ter a visão de seu futuro. Talvez esse seja o motivo que o levou ao choro, ao momento em que se viu. Era com isso que ele sonhava? Era isso que ele queria? É claro que não. E teve que admitir: se há merda agora, haverá merda no futuro. Pare, pare, pelo amor de Deus, pare! Você não é nenhuma pestilência! Não há como contaminar quem você tanto quer. Junte-se ao bando. Sai do pântano e caia bêbado no meio da rua, pedindo por mais cerveja barata.
O escritor só podia agradecer à quem lhe deu essa súbita iluminação. Não seria mais inimigo do tempo ou de quem quisesse se meter em seu caminho. Ele não será engolido pelo futuro. Não: ele se prepará e apresentará a seus amigos a melhor peça que já escreveu em toda sua vida. Por favor, chegue mais. Enche aí o copo, que eu vou apagar as frases ruins e trabalhar um pouco mais neste texto.
Sabia que por impulsos não se chegava a nada, assim como sabia que nunca aprenderia a lição. Continuava, continuava. Rangia os dentes, visualizando as piores cenas possíveis. O script estava quase pronto. Os atores já estavam escalados. De quem seriam as falas? Ou melhor: sequer teriam falas? O charme estava no silêncio - pior inimigo do escritor. Provava mais uma vez como sabia de tudo: conhecia seu medo pelo silêncio, sua fraqueza e facilidade em desabar ouvindo... nada.
Ponto final. Não se ouviu mais nenhuma voz. O futuro queria gritar, mas não podia. O futuro queria ser visto... Mas ele não deixava quebrar o silêncio. Vamos lá, só desta vez. Tira esse orgulho. Você nunca foi altruísta. Você nunca foi bonzinho. Se você fosse, talvez receberia o papel de herói. Mas não: você apenas cria histórias, exagera em detalhes, controla a vida de suas marionetes como bem quer. Ele pegou o lápis e fez um movimento no ar. Ouviu-se um grito. Vislumbrou-se o futuro.
Em imagens densas, ele olhava por olhos de terceiros uma encenação culminando em vaias. Foi o choque. Foi uma misericórdia que ele pudesse ter a chance de assistir ao momento com tamanha antecedência. Ele teria que passar a acreditar: foi, sim, uma intervenção divina. E entre um sorriso e outro, repetiu que tudo que vai, volta. É verdade, é verdade.
Foi por isso que o escritor passou a tremer com tanta violência após ter a visão de seu futuro. Talvez esse seja o motivo que o levou ao choro, ao momento em que se viu. Era com isso que ele sonhava? Era isso que ele queria? É claro que não. E teve que admitir: se há merda agora, haverá merda no futuro. Pare, pare, pelo amor de Deus, pare! Você não é nenhuma pestilência! Não há como contaminar quem você tanto quer. Junte-se ao bando. Sai do pântano e caia bêbado no meio da rua, pedindo por mais cerveja barata.
O escritor só podia agradecer à quem lhe deu essa súbita iluminação. Não seria mais inimigo do tempo ou de quem quisesse se meter em seu caminho. Ele não será engolido pelo futuro. Não: ele se prepará e apresentará a seus amigos a melhor peça que já escreveu em toda sua vida. Por favor, chegue mais. Enche aí o copo, que eu vou apagar as frases ruins e trabalhar um pouco mais neste texto.
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