sábado, 2 de maio de 2009

Ansiedade Que Precede a Apresentação de Uma Peça Teatral Para Seus Melhores Amigos

Começou com um rascunho de idéias que jamais foram fixas. Mudavam a cada segundo, assim como seu temperamento. Não era de se estranhar que o arrependimento batesse à porta com mais frequência nos invernos - tempo de se recolher e proteger-se de estranhos. O grafite estava fraco. As palavras poderiam ser facilmente apagadas. Mas ele continuou, com a certeza de que estava fazendo o correto.
Sabia que por impulsos não se chegava a nada, assim como sabia que nunca aprenderia a lição. Continuava, continuava. Rangia os dentes, visualizando as piores cenas possíveis. O script estava quase pronto. Os atores já estavam escalados. De quem seriam as falas? Ou melhor: sequer teriam falas? O charme estava no silêncio - pior inimigo do escritor. Provava mais uma vez como sabia de tudo: conhecia seu medo pelo silêncio, sua fraqueza e facilidade em desabar ouvindo... nada.
Ponto final. Não se ouviu mais nenhuma voz. O futuro queria gritar, mas não podia. O futuro queria ser visto... Mas ele não deixava quebrar o silêncio. Vamos lá, só desta vez. Tira esse orgulho. Você nunca foi altruísta. Você nunca foi bonzinho. Se você fosse, talvez receberia o papel de herói. Mas não: você apenas cria histórias, exagera em detalhes, controla a vida de suas marionetes como bem quer. Ele pegou o lápis e fez um movimento no ar. Ouviu-se um grito. Vislumbrou-se o futuro.
Em imagens densas, ele olhava por olhos de terceiros uma encenação culminando em vaias. Foi o choque. Foi uma misericórdia que ele pudesse ter a chance de assistir ao momento com tamanha antecedência. Ele teria que passar a acreditar: foi, sim, uma intervenção divina. E entre um sorriso e outro, repetiu que tudo que vai, volta. É verdade, é verdade.
Foi por isso que o escritor passou a tremer com tanta violência após ter a visão de seu futuro. Talvez esse seja o motivo que o levou ao choro, ao momento em que se viu. Era com isso que ele sonhava? Era isso que ele queria? É claro que não. E teve que admitir: se há merda agora, haverá merda no futuro. Pare, pare, pelo amor de Deus, pare! Você não é nenhuma pestilência! Não há como contaminar quem você tanto quer. Junte-se ao bando. Sai do pântano e caia bêbado no meio da rua, pedindo por mais cerveja barata.
O escritor só podia agradecer à quem lhe deu essa súbita iluminação. Não seria mais inimigo do tempo ou de quem quisesse se meter em seu caminho. Ele não será engolido pelo futuro. Não: ele se prepará e apresentará a seus amigos a melhor peça que já escreveu em toda sua vida. Por favor, chegue mais. Enche aí o copo, que eu vou apagar as frases ruins e trabalhar um pouco mais neste texto.

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