quarta-feira, 15 de abril de 2009

Alexandria

Minha transmissão, talvez um dia global, começou e terminou nestas paredes de mármore, aquecidas pelo Sol. Em um sagüão gigante, cercado de meus amigos prontos para aplaudir a queda, estava eu e o fogo. O que ainda sou? Qual é minha identidade?
Apenas sei que estava em estado de paralisia - como se rever o passado me causasse uma náusea constante. Eu já era oco, vazio, e isso explicava muitas coisas. Onde está meu corpo? Deitado nas construções de Alexandria ou mumificado? Quem retirou meus órgãos senão eu mesmo? Eu era apenas pele - uma imagem que enganava até o melhor observador.
Mas se estou tão vazio e mudo, talvez eu entenda a aversão dos outros. Ah, eu sinto tanta vergonha de tudo que já escrevi... e esta terá que ser a última vez. E de onde posso buscar inspiração senão de minha própria vida? Mas e se nunca vivi... o que irei escrever? Você pode me ensinar?
Ainda sinto que quando abro a boca vomitarei a mim mesmo. Tenho tantas ataduras em meu corpo e não sei o que fiz. Há algo que ainda bate. E em dois pratos, eu colocava a pena e o músculo avermelhado. Para que lado penderá a balança? Se tudo deu certo, coisas mortas não pesam nada. E a pena vencerá. Irei ao céu.
Se estou aqui, foi para escrever meu testamento. Inspiro e relembro tudo o que vivi... todos os manuscritos precisam morrer. Antes, eu reuni meus papiros em uma pilha, em clima de despedida. E agora eu poderia dar início a meu último renascimento:

"Há tantos motivos para parar e há tantos motivos para dizer que não faz diferença estar bem. Entre o corpo esquálido e o cálice vazio, entre os lábios rachados e as juras do que restou de mim frente a meus medos... o que contarei para meus filhos? Por que me acordou? Por que me quer bem? Não me importa ser exato no que desejei. Quem me quis bem fez notar a indiferença frente a meu corpo, deslizando a queda sem fim. Ah, quem me dera desaparecer antes de alcançar... Pois a mim foi erro não pensar que esquecer fosse um vício. E meus erros viriam para tirar de mim e entregar àqueles que cospem na terra em que meu amor fincou sua raiz. Como posso ter a certeza de uma escolha justa? Apenas sei que, se fui rei, fui rei das chagas."


Olhei dentro de mim como nunca havia feito antes e procurei alguma identidade. Mas apenas achei cópias e mais cópias, me levando à conclusão de que minhas últimas palavras não foram tão grandiosas assim, afinal.
E descobri, nestes últimos instantes, que talvez nunca conquistei império algum. Já fui rei? Ou somente um projetor? Talvez o fogo me responda. Talvez, se eu iniciar o espetáculo.
Juntei toda a minha vida em uma pilha. Meus caminhos ao céu estavam traçados - o veneno do corpo foi extraído nas últimas palavras desperdiçadas. Agora arranca a língua e transforma em fogo pra jogar na água - a vida. Agora entenda que nestas águas criou-se um rio que separou dois corpos brilhando ao Sol e expondo carne podre à corvos brancos. Que de dois corpos, um flutuava e outro tinha seu ombro castigado pelo peso.
As construções deixaram de ser douradas. As línguas me devoraram. Novas gerações vêm e o passado é esquecido. Talvez eu tenha mesmo me perdido no meio de tantas palavras... E, mais forte do que nunca, o Sol castigava a biblioteca de Alexandria.
Pai, corta as asas que me destes e joga ao fogo. Deixa eu voltar para o ninho. Por favor, me dê a cicuta e acaba logo. Espero a tumba, espero dicionários queimados, espero que o alfabeto não tenha passado de uma utopia. Me arrependo tanto de ter me arriscado a viver... E te prometo que a risada não será meu ato final. Pai, seca todas as tintas do mundo e impeça que eu termine de escrever meu destino.

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