terça-feira, 10 de junho de 2008

Roda-Gigante

A vontade de sair de algum lugar para algum lugar era grande e, afinal, foi isso que eu fiz. Fechei. Olhei para frente e me deparei com uma cidade tanto conhecida, como desconhecida. A névoa cobria o horizonte e eu não conseguia ver muito além. O céu era cinza demais, misturando o preto com alguns pequenos pingos brancos. Eu avancei pela fumaça incolor até chegar em uma espécie de guarita ou algo parecido. Não sabia se era um atendimento. O anão falou, do jeito mais zangado e irritado possível, o valor do preço. E eu, educadamente, com o maior carinho, respondi que o preço não se pagava da forma que ele pensava. Simplesmente o ignorei e fui direto, caminhando pelas trilhas de chão marrom que eu visualizava. O verde contrastava intensamente. Aí que tudo mudou: a neblina dissipou-se, dando lugar a uma porta, simplesmente no meio do nada. Chegava a ser cômico. Era uma espécie de passagem, mas eu poderia apenas passar pelo lado da porta que não mudaria nada. Porém, trocentas luzes indicando que eu deveria passar por ela não poderiam estar ali por acaso. Eu parei e analisei.
Quer dizer, eu sempre quis estar ali, certo? Será que eu acordei no lugar que eu nunca quis estar? Mas isso só aconteceria uma vez por ano, ou por vida, ou por mês. Nada vai mudar após isso. Eu fechei os olhos. Tudo bem, eu realmente fiquei com medo de abrir eles e enxergar o que eu não queria ver. Mas eu não poderia olhar para trás e voltar para tudo que eu deixei. Eu não queria. Então, a alternativa era óbvia. Aliás, mais necessária do que óbvia, porque eu precisava respirar e passar pela porta me dava a sensação de ganhar oxigênio novo. Uma última vez, eu olhei para o céu negro. E uma última vez, eu olhei para trás, para visualizar nada além de uma névoa um tanto assustadora. Eu estava em um lugar seguro - até agora.
Então eu abri a porta e a atravessei. Bem, se era pra acontecer alguma coisa mágica, então o plano fracassou. Mas espera. Algo aconteceu sim. A visão que eu tinha antes de entrar na porta era de que além apenas havia uma mata, muito verde. Eu abri a porta. O que aconteceu foi uma coisa no céu. Eu não entendi. Ele estava... se condensando. E uma tenda gigante surgiu na minha frente. Ok, me certifiquei de que não estava com bafo de cerveja ou algo parecido. Caminhei até a tenda. A sua entrada era muito escura e nela tinha um corredor longo, com um brilho lá no fim. Eu o atravessei - morrendo de medo, naturalmente -, mas o que eu vi depois valeu a pena.
Sinceramente, eu acho que estava dentro de um sonho meu. O horário, eu tinha certeza: estava entre quatro e cinco da tarde. Talvez fosse domingo - eu torcia para que fosse, assim eles não seriam mais depressivos. O céu estava vermelho, roxo, azul, azul claro, branco, amarelo. As nuvens cobriam grande parte dele. Eu avistava, além dos morros, alguns moinhos, dourados. E, na minha frente, o que tinha era uma população levemente grande. Muitas pessoas - a maioria da minha idade. Eu estava em um parque. Tinham outras tendas menores ao meu lado, onde algumas pessoas comiam e bebiam. E tinha uma roda-gigante na minha frente, onde eu enxergava... Meus amigos? Todos estavam lá. Mas eu não sei se eram realmente eles - não tinham rosto! Aliás, reparei melhor e ninguém tinha rosto. Era bizarro: as faces eram vazias e tudo que se via era uma boca, por onde eu achei que emitiram algum som, espero.
Fiquei horas vendo a roda-gigante e as pessoas conhecidas, ou não, que estavam nela. Horas em silêncio. Então, tive uma vontade irrefreável de subir, de alguma forma, no topo mais alto dela e saltar. Gritei para algum qualquer que estava na roda e qual foi a minha surpresa? O céu, que na hora estava verde, se fechou. Todas as pessoas correram. As que estavam na roda saltaram dela (e sobreviveram). Correram para as tendas pequenas, onde aparentemente eram servidas as comidas. E então, começou a chover. Eu não sabia se ria ou se chorava, então o que me restou foi, novamente, verificar se estava com bafo de cerveja. Ou esperar que alguém me acordasse. Mas eu não ficaria ali parado esperando que as gotas caíssem na minha cabeça. Então, me juntei ao pessoal estranho.
Eu adorava a chuva, eu odiava a chuva, eu já gostei mais da chuva. Fiquei contemplando ela do lado dos meus amigos bizarros sem rosto mas com boca. Eles emitiam muxoxos esquisitos, como se fosse um gemido contínuo ou algo que queriam falar mas não conseguiam. A chuva não parava de cair. E eu fracassei mais uma vez, no dia de sol. Malditos dias em que a luminosidade se fazia. Quando que eu aprenderia a domá-los? Por mais quanto tempo que eu terei de correr e ficar protegido, observando os meus dias de chuva?
Tudo se fez claro. Tudo. De repente, eu percebi que não era o único que me sentia estranho quando não chovia. De repente, eu notei que todos tinham seus problemas. Todos éramos problemas ambulantes! Eu era um monstro. Eu era a pessoa mais egoísta do mundo. Como eu pude, durante todo esse tempo? Eu olhei para as pessoas ao meu redor. Seus olhares vagos eram a melhor indicação que eu precisava. Não era só eu, afinal. E eu não me sentia um justiceiro por notar isso. Não, não, eu simplesmente percebi o quão idiota e frágil estive por tanto tempo quando, na verdade, todos somos assim. Senti nojo. Queria sair do meu próprio corpo. Eu corri para a chuva. Gritei alto. Sim, o sol viria e eu iria saber viver nele. Da minha parte, afinidade já tínhamos. Não quero mais sensação alguma de segurança. Já estive seguro por muito tempo.
Eu segurei a lanterna e iluminei a névoa do verão. Se o verão não viesse, então eu que aprendesse a trazê-lo pra mim. Pois eu o farei, e arrastarei junto comigo milhares de pessoas e passos.

E eu não quero mais descer
Não tenho medo de você
Eu só preciso de você
Não tenho medo de me perder
Por aí

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