Nós falamos a mesma coisa, mas não podemos falar o que pensamos. Nós caímos todos os dias. Eu pedi para que ela me seguisse até em casa. Sim, eu falhei. Eu precisava. E ela me seguiu, obedientemente. Uma obediência perfeita. Ela não avançava e nem retrocedia um ponto que fosse. Andava comigo. Nós, juntos.
Eu acordei. Estava deitado em um banco, no meio de uma calçada. Parecia um mendigo, mas não era. Não que eu soubesse quem eu fosse. Mas eu deveria cumprir minha rotina como sempre. Não era feito para pensar ou mesmo viver - o que acontece é que o mais importante agora era me vestir para... fazer algo importante. Coisas importantes acontecem todos os dias e eu, uma mera peça, tenho essa percepção.
Vesti uma camiseta branca ao redor de meu tronco magro e esquelético - ali mesmo, na rua - e coloquei um casaco. A cidade estava cinzenta, como sempre. O que eu notava eram apenas alguns feixes laranjas que volta e meia passavam na minha frente. Deveria ser muito cedo porque não tinha absolutamente ninguém na rua e o sol ainda estava tímido.
Surgiu, então, um vulto caminhando do outro lado da calçada. Ele estava com uma roupa esportiva, então eu não tinha certeza se ele ia trabalhar. Mas creio que sim. Caminhava em passos lentos. Aí que minha observação começou. Olhei para os meus tênis e depois para os do estranho. Era impressionante como naquele verdadeiro cabide humano, onde simplesmente só eram jogados pedaços de pano por cima, o que mais tinha vida era o que o sustentava. Aquele tênis, aqueles tênis, eles tinham vida própria. Eu conseguia ver perfeitamente que ele buscava observar alguma coisa, enxergar alguma coisa. O que me fez deduzir que o tênis procurava algo era o simples fato do estranho caminhar sem cair. Ele tinha um bom equilíbrio, aparentemente. Seus cadarços não eram amarrados.
Imagino que para saber caminhar tão bem, sem tropeço algum, ele não deveria estar muito feliz. Tanto que o tênis procurava algo e eu via isso. Será que ele não se deu conta que a resposta estava exatamente do seu lado? Não que eu mesmo seja a favor disso - só me pergunto por que procurar tanto quando bastava olhar para uma única direção. Ficou muito claro para mim que ele só não analisava o que estava do seu lado porque não queria. Era óbvio que, para ele, seria muito mais fácil visualizar um belo futuro, onde ele, por ventura, por um acaso, algum dia, talvez conseguisse aquilo. Uma situação confortável. Não era necessário realmente querer aquilo, afinal... Se ele realmente quisesse, procuraria primeiramente ao seu redor. No entanto, acomodar-se pareceu a melhor solução. Ninguém gosta de cair mesmo.
Outras pessoas começaram a aparecer. Ao contrário do primeiro cidadão, não eram todas que caminhavam normalmente. A grande maioria, eu reparava, caíam. Seus cadarços eram amarrados uns aos outros, literalmente. Davam um passo, tropeçavam, caíam, levantavam, seguiam em frente. Constantemente. Para levar tantos tombos, elas certamente deveriam estar felizes. Estas, com certeza, resolveram se unir. Eu penso, enquanto que amarrava meus cadarços: essa tal união entre dois tênis faz a vida parar. O tombo pendia para dois lados: um lado próprio e o outro lado, contrário. De vez em quando, até nós errávamos. Mas a culpa nunca era nossa. Ou era de um, ou de outro. Não existe nada entre. Não existe um compartilhamento de idéias. Tudo tem que ser igual. Não pode haver um lado fraco e vulnerável, em contrapartida a outro forte. Cheguei a conclusão de que os malditos tênis não se uniam. Tênis não se unem, porque tênis são um tênis mais outro tênis. São todos iguais exceto, talvez na aparência, mas... afinal, do que valem estes números? Qual a lógica de diminuir dois para um? Duas vidas fundidas em uma só, não é possível. Somos um. E por mais que agreguemos, ou mesmo busquemos (inutilmente) tênis a nossa volta, continuaremos sendo um.
O fato é que eu tinha terminado de amarrar os cadarços brancos. Feixes laranjas continuavam a passar por mim, no meio de uma cidade totalmente cinza. Três pessoas passaram caminhando normalmente por mim, rindo. Estava na hora de eu me levantar e ir para o trabalho. Levantei do banco. Estava preparado para dar o primeiro passo. Um tênis viu uma queda. Outro tênis viu outra queda. Um tênis, dois tênis, o mesmo tênis. Não há diferença. A queda aconteceu. Eu caí e clamei por ela. Não queria. Eu não queria lutar contra tudo que eu pregava, mas quem sou eu para ir contra os meus princípios? Foda-se, todos nós precisamos disso. Eu pedi que ela me levasse para casa. Eu pedi que ela me seguisse. E ela me levou e me seguiu. Me seguiu tão bem, sem recuar nem avançar, que cheguei a pensar que ela fazia parte de mim. Cheguei a pensar que ela estava do meu lado, caminhando comigo.
We walk around but never turn to see what we have done
We choose our moves so carefully for you
sábado, 28 de junho de 2008
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