Isso não é o que se pode chamar de uma história original. Mas não importa: é a vida real.
Tinha acabado de fechar a porta de casa. Eu estava faminto - minha irmã tinha comido o meu sanduíche - mas eu não podia perder tempo: o campeonato de skate estava pra começar. Eu iria em um lugar novo e conhecer novas pessoas - precisava disso. Andei sem pressa (por que eu estava sem pressa?) na avenida principal, observando o mar do outro lado. O sol estava forte. O dia estava perfeito e movimentado.
O campeonato não havia começado. Os skatistas estavam praticando. O lugar estava cheio e eu me senti um pouco estranho. Saí e fui para a entrada. Lá tinha menos pessoas e eu poderia esperar até começar a competição. Sentei e fiquei observando um grupo de amigos que bebiam animadamente. Pareciam pessoas legais. Pensei em me aproximar deles. Levantei e estava na metade do caminho, quando ouvi alguém gritar meu nome. Me virei e vi uma menina correndo na minha direção. Era a minha vizinha. Nos cumprimentamos e voltamos para onde eu estava sentado anteriormente.
Ela era uma grande amiga. Nos conhecíamos desde criança. Na verdade, nos conhecíamos muito bem.
- E a sua namorada? - ela perguntou.
- Não soube? Toda escola não pára de comentar. Terminamos o namoro.
- Ah... - seu cabelo curto e tingido de loiro balançou um pouco - E seus amigos?
- Não conhecem esse lugar. Às vezes tenho uns acessos de me aventurar por aí, mas no fim acabo sempre voltando pra casa.
- Sei - ela riu - Você tá com algum problema?
É incrível como ela sempre sabia. Nossas conversas eram verdadeiras terapias.
- Tô? Não sei. Tô numa fase de me importar com algo a mais, sabe?
- Você deveria é se importar com você.
- É esse o "nosso" mal! Nos importamos somente com nós mesmos.
- Mas se não nos importarmos, quem vai se importar?
- Eu me importo.
- Você não disse que estava se importando além?
- Essa conversa é uma droga.
Silêncio. Então comecei:
- Eu quero dizer, problemas sempre existiram. Mas há coisas... Eu apenas sinto que há muito mais do que escola, professores, namoradas lá fora. São diferentes níveis de coisas e isso tá acontecendo comigo. E nossos problemas acabam ficando tão menores...
- Exceto quando eles acontecem com você.
Nova pausa. Dessa vez, ela começou:
- Eu acho que você não quer enfrentar os seus próprios problemas.
- A vida é cheia de problemas.
- Eu sei. E seria estranho se não tivesse nenhum, não é? Você não vai salvar o mundo. Você sequer tem essa intenção. E não leva o mínimo jeito também.
- Eu preciso começar de novo. Eu preciso dar sentido às coisas. Alguma coisa faz sentido?
- A sua vida faz sentido?
- Não sei. Mas se nada faz sentido... então certamente há muitas coisas a se fazer.
- É, você pode dar sentido às coisas sim. Mas não fique o tempo todo procurando e procurando e trabalhando nisso. Você precisa de um ponto de partida.
- Eu preciso é de um ponto de união.
Ela riu. Por um momento, fiquei em dúvida se pertencíamos àquele lugar. Então, ela falou:
- Relaxa. Nós estamos vivos... e isso é tudo.
- Tudo o caralho. Eu não nasci pra viver assim.
- Assim como?
- De maneira imposta.
- Você não precisa viver de maneira "imposta". Mas você precisa respeitar as regras.
- Eu quero viver do meu jeito. Eu não quero ser obrigado.
- Obrigações fazem parte. Você não vai viver do jeito que você nasceu sabendo "o que" e "como" é viver.
- Mas que merda, caramba. Eu só quero conseguir tudo nessa vida. Eu comecei a viver muito tarde. Olho pra trás e vejo uma trilha de arrependimentos, todos alinhados e empacotados. Eu perdi muito tempo. Talvez até "isso" seja perda de tempo. Afinal, nossa conversa não vai adiantar nada. Eu poderia...
- Ninguém te contou ainda? A vida não é um jogo de palavras cruzadas, onde tudo se encaixa. Há inúmeros pedaços em branco que nunca terão respostas - porque o seu tempo já passou. Nada é perfeito. Viver é a arte mais difícil dessa vida! Mas você não precisa se lembrar dessa dificuldade a toda hora. Vá indo, vá...
- Deixando passar? Você sabe - quer dizer, ninguém sabe, porque todos pensam que a minha vida é uma merda porque eu quero...
- Sua vida não é uma merda. Eu nunca pensei isso e eu te amo.
- Deixa eu continuar. O que eu quero dizer, enfim, é que eu não posso ficar parado e ficar vendo e revendo tudo que passa ou já passou. Eu quero viver tanta, mas tanta coisa, que nem tenha espaço para eu lembrar futuramente. Eu não posso deixar a vida passar batido. Vamos sair daqui agora. Vamos chamar todos nossos amigos, fazer declarações mútuas em conjunto e se divertir. Charlotte, eu simplesmente não agüento mais. A minha vida precisa - ela vai - mudar a partir de agora. Vamos, se levante. Vamos ir contra todas as previsões. Vamos correr pra sempre e, talvez, pensar em parar algum dia.
Sem passado, nem futuro, eu vivo um dia de cada vez
Se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual
A Letra Invisível fecha a trilogia. Eu ainda não sei se tô satisfeito com ele. Mas é o meu preferido, ainda que só na minha cabeça. E é o mais pessoal também.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
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1 comentários:
Ok.
Eu já disse o que eu acho desse texto. Ele é complexo.
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