sexta-feira, 30 de maio de 2008

Curinga

Cheguei em casa e fui direto para o quarto. Coloquei minha pasta sobre a escrivaninha de trabalho. Me despi. Eu estava cansada e hoje foi um dos piores dias do ano. Deitei na cama. Ainda virei o rosto para o lado e fixei, atentamente, duas folhas que escorregavam da minha mesa. Aqueles garranchos atravessaram minha face. Era ridículo se sentir impotente diante daquilo mas, infelizmente, era real. Antes de apagar a luz do abajur, eu acabei não agüentando: tive que chorar. Mas afinal, amanhã seria um outro dia. E eu prometi para mim mesma que não seria igual a hoje.

Eu me despedi deles e tomei meu rumo para casa. Tudo era muito lento: a rua parecia areia movediça, os postes se mexiam, a luz era sólida. Porém, lá estava eu, entrando na minha sala. Acabei acordando meus pais, como eu ja previa. Tudo aconteceu como a rotina manda: gritos, gritos, eu argumentando com palavras, meu pai argumentando com socos. O estômago já não sentia mais nada. As pernas estavam fracas. Mas eu cheguei até minha cama e consegui dormir

Hoje foi o melhor dia do ano! Quando meu filme terminou, desliguei o DVD e estava pronta para dormir. Dei um sorriso de satisfeita: enfim, aconteceu. Eu sabia que tudo valeria a pena. Passei a mão pelos meus cabelos, depois pelos meus lábios e lembrei da cena. Era perfeito. Era um perigo perfeito.

Coloquei meu boné, joguei minha mochila sobre o sofá e fui direto ver TV. Meu Deus, eu já não suportava mais aquilo. Como poderiam todos ter tanto medo? Por que sempre temos que ter um líder? Eu não seguirei ninguém. Deve ter algum problema muito sério ali, mas ninguém se preocupa com isso. Ninguém se preocupa com ninguém.

Nós saímos daquele lugar imediatamente. A situação estava caótica e teríamos que correr para não sermos pegos. Passamos pelos portões e enfim estávamos do lado de fora, livres. O sol já desaparecia e fazia frio. Olhei para ela - ela mexeu nas suas mexas loiras - e nos beijamos. Por fim, meu amigo deu a idéia de irmos beber em algum lugar para matar tempo. E hoje eu vim com bastante dinheiro. Hoje a noite valeria a pena.

Eu não sabia se ficava ou se saía. E eu também não sabia se tinha feito o correto, afinal. Eu provoquei, sim, mas como eu ficaria... "calado" numa situação daquelas? Foi um absurdo. Não, não, eu não ficaria aqui nesse lugar por mais um segundo nem morto - se bem que se eu sair daqui, bom, daí sim eu talvez esteja morto. Foda-se. Guardei o boné na mochila e saí.

Ela perguntava constantemente o porquê de eu não cumprir com minhas obrigações. Hoje ela estava particularmente mais feia do que o normal. Eu ri. Será que ela realmente sabia com quem estava falando? Não, ela não tinha nem idéia. Eu gostava da minha capacidade de só ver o que ela falava, agressivamente, enquanto que eu mesmo ficava absorto em meus pensamentos. Era uma diversão, mas hoje isso acabaria. Me levantei da cadeira e comecei a falar tudo o que ela sempre falou pra mim. Ela gritou mais alto. Olhei rapidamente para trás e todos estavam atônitos. Cuspi na cara dela. Ouvi murmúrios. Ela fez a cara mais ameaçadora que eu já vi na vida - e olha que eu já vi muita coisa. Apenas puxei a ponta de um objeto prateado que saía da minha jaqueta. Ela acabou ficando quieta. Eu notei que todos atrás de mim também viram isso. Todos pareciam a meu favor, mas eram, ao mesmo tempo, tão covardes... Perguntei quem que iria sair daqui comigo. Olhei para o meu amigo. Ele fez um sinal. Ouvi um muxoxo de um rapaz. Guardei bem seu rosto: usava um boné vermelho. Mas que idiota. Outro que não me conhece. Por fim, olhei para a menina que meu amigo falara. Ela estava com uma cara fascinada. Os dois se levantaram e me seguiram. Abrimos a porta e imediatamente o sinal para o recreio tocou.

Eu estava parado na frente do museu, o esperando. Um tempo depois, chegou. Nos cumprimentamos. Seguiríamos juntos o caminho para o inferno. Eu comentei de uma menina que estava a fim dele. Ele perguntou se era a morena. Eu disse que ela era morena até ontem. Hoje estava loira. Ele sorriu. Notei que havia um certo ar seco da parte dele. Não quis perguntar o que houve porque não sabia se a minha amizade com ele permitiria isso. De qualquer forma, fiquei alerta. Chegamos. Hoje será um porre, eu disse. Ele me falou que seria divertido.

Saí de casa aos chutes. Por sorte, consegui pegar a minha jaqueta e salvar a faca que havia nela. Hoje ninguém mais iria me encher o saco. Eu era tão impotente dentro da minha própria casa. Queria que eles soubessem de mim aqui fora. Sim, havia sofrimento. E foi bom. Foi uma fase de transformação, eu diria. Quando atravesso aquela porta, sou outra pessoa, graças à tudo isso. Eu caminhava no meio de uma multidão gigantesca. Todos nós seguíamos os mesmos passos, mas acho que eu era o mais diferente dali. Eu sei que eu me destacava ao redor de tantas pessoas. Eu sentia a confiança borbulhando em mim mesmo. Eu era diferente e não fazia questão de ser compreendido - eu queria apenas agir. Não faço parte deles, tenho certeza. Eles, na verdade, têm apenas que me agradecer.

Não interessa o que o bom senso diz
Não interessa o que diz o rei
Se o jogo não há juiz
Não há jogada fora da lei
Não interessa o que diz o ditado
Não interessa o que o Estado diz
Nós falamos outra língua
Moramos em outro país
Somos um exército, o exército de um homem só

Eu decidi continuar com o tema iniciado no A Onda Mata o Homem. É uma trilogia e Curinga completa a segunda parte. A terceira é, supostamente, a minha favorita. Eu já escrevi e até mesmo publiquei aqui, mas não bastou algumas horas para eu ler e ver como ficou... ruim! Eu ainda tenho que trabalhar mais nele porque eu sei que não tá completo. Tenho mais coisas a dizer e acrescentar. No mais, vou publicá-lo logo.
E só pra constar, a trilogia fala sobre o relacionamento das pessoas com as outras, mas isso talvez já foi notado.

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