A Onda Mata o Homem
Mais um dia na ilha. Eu vejo sempre, com aquele sorriso estranho, que eu não sei se é pra mim. Mas para quem mais seria? Sou só um no meio do nada, pelos menos para mim mesmo. Infelizmente.
Acordei e fui direto para a areia. Estava no meu lugar - eu sabia que ele me pertencia. Era uma situação absurda, sim. E eu não pretendo explicá-la. É tudo tão paradoxo - eu me sinto bem, eu me sinto bem no meio do nada e isso é estranho. O que me trouxe até aqui? O silêncio. Não sei se há alguém tão diferente e parecido comigo como ela, mas enquanto que eu não acho, resolvi parar aqui. E qual a minha surpresa ao encontrá-la? Sempre parada e me desafiando. Eu amo o silêncio, mas o traí, em pensamentos.
Sempre olhava ao meu redor e ouvia palavras e ruídos que eu desconhecia. Eu não era normal. Ou os outros que não eram? Por que todo mundo falava uma linguagem estranha? Cadê o sentido das coisas? Resolvi fugir. Ou procurar o lugar certo, como queiram. O que acontece é que eu tomei coragem e resolvi deixá-la (não que ela me pertencesse algum dia). Desculpe, mas não pude agüentar. De qualquer forma, nos encontramos aqui novamente. O que me encanta de verdade é a quietude, o vazio, a falta de palavras. É a melhor coisa do mundo. Eu não fui feito para barulhos estranhos. Não sinto a menor saudade. Talvez você pense que falta uma companhia, e aí eu respondo: ela existe. Sim! E juro que não estou ficando louco.
Fui encontrá-la. Me levantei da areia e deixei o sol me castigar por alguns momentos. Em seguida, fui até ela. Sempre com aquele olhar misterioso que eu nunca sei se é pra mim. Eu ria e queria que ela risse também, mas isso nunca acontecia. Eu chamava a atenção. Éramos só eu e ela. O seu barulho, esse sim, me enchia de prazer. Batendo sempre contra as rochas, ela era linda, alta, esguia. De um azul infinito. Eu iria desvendá-la até não poder mais. Para sempre. Levaria uma eternidade mesmo. Ela era a pessoa - pessoa? - mais complexa do mundo. Diferente de todos, tenho certeza. Hoje sentei ao seu lado e comecei a fazer as palhaçadas de sempre. E tenho certeza: ela riu. Mas riu em outra direção. Ela olhava outro alguém, ela não me olhava. Já estava acostumado, na verdade. Eu me acostumava facilmente com situações onde eu perdia. Entretanto, hoje, ela não fixava seus olhos em mim de jeito algum. Seus olhos azuis, de profundidade oceânica, que eu conhecia tão bem...
Porém, fui tomado por uma raiva e isso me fez assassiná-la. Lutei bravamente - ela era forte. E ria o tempo todo, achava graça! Eu era um cara engraçado, enfim? Ela quis que isso acontecesse? Eu não sei. Fiquei cego e fui matando-a rapidamente, sem o mínimo de dó ou piedade. Na hora, eu não pensei em mais nada. Só queria que ela parasse e prestasse atenção em mim, que sempre a tratei bem. Por que, mesmo em uma maldita ilha sem habitante algum, ela se recusava a olhar para mim? Eu não queria mais saber mesmo. Acho que um jorro vermelho lavou todo o meu corpo. Não tinha mais certeza do que aconteceu - era uma situação tão bizarra quanto cruel. Caí sobre seu corpo e deixei que ela me levasse para onde quisesse. Ela sempre controlou meu destino. E eu não me importava de ser controlado por ela.
Um mergulho em busca de ar
Tudo mudou
Ela acordou
Estava onde nunca quis estar
A Onda Mata o Homem foi escrito durante uma observação do cotidiano, totalmente... do nada. Esse já é um pouco mais "meu" mesmo. Não sei se essa fase de inspiração repentina rende boas coisas - acho que meus temas andam se repetindo -, mas, de qualquer forma, (quase) tudo que for escrito estará por aqui.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
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1 comentários:
Tu tá viciado na onda. Saia dela.
Não vai dar pra surfar, entende?
Ainda acho que o último texto foi bem mais pessoal. Talvez nele você tenha revelado mais do que planejava.
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