Acordou. Estava deitado em cima de algo espesso e estranho. Com um leve ar embrigado e confuso, tentou se recompor. Já de pé, observou o local: estava exatamente no centro de uma sala circular, com portas em toda parede. Muitas portas. Tantas, que seus olhos mal conseguiam ver as mais distantes. O chão era raso, exceto pelo local onde seus pés tocavam; parecia um alçapão ou algo semelhante. Ignorou.
O grande salão circular onde estava situado tinha um leve aspecto rústico. É, ele já sabia que estaria ali algum dia. Na verdade, ele sempre soube, e até mesmo desejava estar ali, mesmo que oportunidades não faltassem. Ele as deixava passar e não sabia o porquê. Avançou contra a porta que estava exatamente na sua frente. Eram tantas... Não teria idéia do tamanho do local. Aquela era nua. Sem inscrição alguma. Ao se aproximar, sentiu um cheiro adocicado e que irritou um pouco suas narinas. Mas era bom, era gostoso. Ele queria continuar ali o resto da vida, se possível. Subitamente, saiu de perto da porta e avançou na do lado.
Examinou-a. Aquele cheiro anterior vinha daonde? Essa não tinha nada demais. A maçaneta estava ali, mas ele não quis girá-la. Simplesmente encostou o ouvido o mais próximo possível da porta e ouviu alguma coisa... algum tipo de barulho contínuo, como uma linha que nunca mudava de direção. Era hipnotizante, porém cansativo. Após um enorme esforço, saiu dali para outra.
Esta tinha uma imagem gravada. Mostrava um grupo de pessoas ao redor de uma mesa, jogando cartas. Todas sorriam e pareciam felizes. Ele quis levar a pintura consigo - era bonita. Porém, parou pra pensar e resolveu girar a maçaneta, certo do que aconteceria. Sua mão travou, como esperado. Soltou uma risada. Tentou abrir as outras portas que estavam ao seu alcance, mas estavam todas trancadas. E quantas deviam ter ali? Milhares. Ele não tentaria em todas elas - ele sabia a resposta.
Era tão óbvio e previsível quanto aquele lugar. Ou inventaram uma máquina de desenhar sonhos ou o mundo estava realmente clichê, pensou. Mas não era hora de desdenhar das coisas. Deitou-se no chão e pôs-se a pensar. Todas as saídas estavam trancadas... E ele esperava por aquilo há tanto tempo. Contudo, ele mesmo as poderia ter fechado, não? "É muito fácil pensar e se redimir depois. Naquela hora, eu não queria isso". Quantos mundos alternativos nós temos... A proporção é assustadora, considerando que só temos um a viver. Somente um, e o mais difícil. "Dá preguiça. Confesso que poderia ter me concentrado mais. Deveriam nos dar um óculos antes mesmo de cortar nossos cordões umbilicais. A linha não é mais reta: ela se divide em tantas que é fácil se perder".
Mas agora era a hora. Ele finalmente seguiria somente aquilo que planejara desde que nasceu. Ou o que lhe foi imposto... Mas era necessário. Era necessário obedecer àquela lei. Levantou-se e foi até o alçapão no meio da sala circular. Abriu-o com certa dificuldade e visualizou algo azul, branco, roxo, não sabia ao certo o que era. Saltou.
No meio do pulo, ainda tentara trocar de canal. Ainda tentou fugir para os lugares mais confortáveis do mundo. Mas ele sabia que a aula de realidade havia dito que o próprio mundo não é - ou pelo menos a partir de agora não será - confortável. Enfim, todas as tentativas foram em vão. E ficou feliz com aquilo. Chegou a sorrir. Se não fosse por vontade própria, que fosse à força. Um dia seria forte o suficiente para controlar a si mesmo. Um dia... com mais uma enxurrada de mudanças de 12 horas e um só destino.
Eu que não fumo queria um cigarro
Eu que não amo você
Envelheci dez anos ou mais nesse último mês
sábado, 10 de maio de 2008
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1 comentários:
Ás vezes pode ser saudável entrar por algumas portas antes de entrar no alçapão, não é?
Tu se saiu bem, até parece cult uehuehuehuehuehueheh
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